sexta-feira, janeiro 20, 2006

Reger

Não há nenhum quadro perfeito e não há nenhum livro perfeito e não há nenhuma peça de música perfeita, disse Reger, esta é que é a verdade e esta verdade permite que uma cabeça como a minha, que durante a vida inteira não tem sido senão uma cabeça desesperada, continue a existir. A cabeça tem de ser uma cabeça que procura, uma cabeça que procura os erros, os erros da humanidade, tem de ser uma cabeça que procura o fracasso. A cabeça humana só é efectivamente uma cabeça humana quando procura os erros da humanidade. A cabeça humana não é nenhuma cabeça humana quando não se põe à procura dos erros da humanidade.
Thomas Bernhard, Antigos Mestres

quarta-feira, janeiro 11, 2006

(?)

Porque é que as pessoas dizem o que dizem e da forma que o fazem? Porquê determinadas palavras e não outras, também possíveis, também dignas de reprodução? Porquê esta ou aquela construção, aquele número de pausas, aquela disposição de sons e entoação? Qual a razão da linguagem no país do vácuo pensamento? Será que faço bem em preocupar-me tão cedo com coisas tão profundas?

segunda-feira, janeiro 09, 2006

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Menção

Assinalo com algum orgulho as mil visitas aos quartos escuros desde que decidi instalar este contador há coisa de nove ou dez meses. Estava em casa com pouco para fazer, lá fora chovia e eu esperava com impaciência a resposta a uma candidatura de emprego.

terça-feira, janeiro 03, 2006

Versos antigos (espécie de haiku intimista)

como o ramo e a folha verde
a flor e a borboleta
assim nós

tu e eu
juntos

como sempre deve ser

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Conversa de bola

Hoje no café, cedo pela manhã, dois senhores de idade discutiam o recente empréstimo de certa promessa do nosso futebol a um clube de menor dimensão. É que ele precisa de minutos, dizia um.
E eu de décadas, senhor, de séculos inteiros para me afirmar.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Dia trinta

Acordei hoje no quarto escuro, acossado pelas possibilidades de uma transmutação semântica do nosso léxico. Não uma total transformação de sentidos ou classes morfológicas, apenas um enxerto novo num ou noutro nome comum ou abstracto.
Chego de manhã ao escritório. Tenho em cima da secretária, junto ao planisfério, o recibo do meu vencimento. Vencimento. Sempre aguardado, sempre simpático. E também uma dessas palavras que se prestam a outros empregos fictícios . Quisera resgatar o termo à sinonímia com salário, ordenado. Retirar o vencimento do infame campo semântico do labor remunerado. E porque não fazê-lo regressar para perto da raíz que partilha com vencer e vencedor? Mas suavemente, sem pressas. Do sufixo mento, fonte de uma amena substantivação, preservaria a sonoridade branda e tranquila. Teríamos então, que bom seria, um vencimento não no sentido rigoroso e marcial de vitória ou conquista, mas mais enquanto progressiva imposição da matéria, afirmação consentida de um poder que não molesta totalmente. Um vencimento não como antónimo de derrota, mas mais como o oposto de suave rendição. E nessa altura, para submeter à experiência a deliciosa possibilidade, escreveria versos como o vencimento do meu corpo por teu intermédio, ou passagens descritivas como o vencimento da manhã sobre a noite longa tinha no costumeiro tom rosáceo o prenúncio de um dia quente. São coisas a que as palavras se prestam na minha cabeça. Imagino.

domingo, dezembro 18, 2005

Um poeta fala de si

Sou poeta. Esse é o fulcro dos meus interesses. É disso que escrevo. Posso amar, posso ser jogador, e também apreciar as belezas do Cáucaso - mas apenas quando isso deixa um sedimento de palavras.

Vladimir Maiakowski

sábado, dezembro 17, 2005

Tv

hoje
natal dos hospitais
quis tirar um dia de férias
ficar por entre cobertores
ao pé dos meus cães

mas o trabalho obriga
oprime
exige tudo o que ainda resta

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Depois do Inverno

do outro lado do muro
bem por cima do meu ombro
há um arbusto de neve e cansaço

na sua linguagem estranha
feita de formas, pequenos indícios
diz-nos que há-de chegar a idade
o momento solto
passada a estação de inverno

a neve cairá dos ramos
e à volta do tronco esguio
há-de acabar por secar a terra

(o repouso do cão abandonado
um retiro de amantes
o velho com o suicídio na cabeça)

e eu haverei de sair da biblioteca
para vir cantar o arbusto centenário

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Nota

Suspende-se pelo menos até ao início do próximo ano a transcrição de algumas composições do chamado Ciclo das Invocações (ver entrada do dia 11 de Setembro) dada a existência de alguns problemas inesperados no exame dos ditos textos.

segunda-feira, outubro 31, 2005

Lok



hunting creature
arise

initiate light
the invasion of time
the invasion of words

never before had fire that choice

(Duel Song 13/110)

segunda-feira, outubro 24, 2005

Dustmoss



when the battle returns to people
dustmoss choses
the liquid zone
deformer hand

nothing is quite what it seems

(Duel Song 13/55)

sábado, setembro 24, 2005

Fang



midnight fear breaks
red stars
the twinkling battle
watch out
there's an earth eater at night
mouth fang
double hand

choose a pair of night shields

(Duel Song 38/110)

terça-feira, setembro 20, 2005

Madrillon



see this creature
see this creature attack
the definition of battle
gel fish
coast giant

two creatures loosened
whenever you see madrillon

(Duel Song 37/110)

domingo, setembro 18, 2005

Bynor














legendary scopes
liquid spells
of wizard zones
immediately find out
that their opponent's
the worst

his brain the shield
his hand their curse

(Duel Song 19/55)

quarta-feira, setembro 14, 2005

Ponitas



water king
may you take water into your hand
whenever your opponent attacks
water creature
show your leviathan
search your water hand
take it away

you should have seen king ponitas

(Duel Song 17/55)

domingo, setembro 11, 2005

Canções de Guerra. Para uma Breve Introdução ao Longo Ciclo das Invocações

Lies will flow from my lips, but there may perhaps be some truth mixed up with them

Virginia Wolf, A Room of One's Own


Comecemos pelos factos, ainda que nem todos possam ser aqui expostos em toda a sua dimensão. Faz agora sensivelmente dois anos que conheci, em excelente companhia, a região alta de Glencoe, um dos mais extraordinários parques naturais que a Escócia oferece aos olhos de um visitante desprevenido. A viagem, abençoada por um inesperado sol de Setembro, tinha na altura dois propósitos bem definidos: conhecer uma paisagem natural deslumbrante e tomar contacto com uma das descobertas arqueológicas e filológicas mais significativas das últimas décadas: um largo conjunto de escritos recentemente descobertos numa pequena gruta da zona por um acidental trio de montanhistas. Várias dezenas de composições poéticas (pelo menos é o que aparentam ser), a cujo conjunto se deu na Escócia o nome de Duel Songs. Chamar-lhe-emos em português Ciclo das Invocações.
O grupo de estudo e trabalho entretanto constituído, ao qual tenho a imensa honra de pertencer, encontra-se ainda a braços com toda uma série de questões fundamentais, para as quais são maiores as suposições que efectivamente as respostas. A equipa encarregue da investigação arqueológica está neste emomento a preparar um primeiro artigo com conclusões prévias acerca de questões como datação, materiais de escrita e estados de conservação. O grupo de estudos filológicos, ao qual pertenço, encontra-se igualmente em condições de avançar algumas impressões, apesar do estado ainda embrionário dos trabalhos. Foi decidido logo de início, com minha total concordância, devo dizer, que o mais sensato seria em primeiro lugar procurar reconstituir os múltiplos textos, com uma possível e adicional adaptação para inglês mais corrente. Só depois, e à medida que o conteúdo e natureza formal das composições fosse ganhando contornos, poderiam ser avançadas considerações de ordem interpretativa acerca do ciclo. Fui autorizado a partilhar por este meio algumas dessas curtas impressões e, mais importante que isso, irei nos próximos tempos reproduzir aos poucos algumas destas "canções de guerra" em versão actualizada e adaptada.
O Ciclo das Invocações não terá sido escrito por um só autor, mas seguramente a várias mãos e no decurso de um relativamente curto espaço de tempo (não mais de uma década ou década e meia), provavelmente correspondendo a uma época de maior turbulência política externa. As várias composições que constituem o ciclo poderão não ter sido à partida concebidas para integrar um conjunto, ainda que seja aparente (quase notória) uma certa unidade formal entre elas. Isto leva a pensar que a sua produção deveria responder a um determinado modelo, ainda que mais ou menos flexível. Os poemas do Ciclo das Invocações parecem ter um cariz vincadamente bélico. Neles, a voz poética (perfeitamente indeterminada), parece exortar determinado soldado para uma acção de carácter militar ou, pelo menos, para uma manifestação dos seus poderes, afirmação do seu carácter, e até (pasme-se) confissão das suas turbulências interiores. Só esta curiosa coabitação de virilidade militar e sensibilidade dará concerteza material para vários volumes e inúmeros debates. O sujeito poético parece por isso identificar-se com uma chefia do exército ou com o próprio povo que deste modo celebra e apresenta os seus trunfos militares (nem todos do sexo masculino, atente-se). As produções poéticas seriam portanto escritas para declamação pública, possivelmente no contexto de um cerimonial específico, em circunstâncias bem determinadas. Isso poderá justificar o aparente modelo comum a todas elas: título (possivelmente o nome ou epíteto do guerreiro), estrofe principal maior com versos brancos de métrica irregular, estrofe final conclusiva de verso único.
As composições serão aqui progressivamente apresentadas para fruição pública e desejáveis comentários, independentemente da sua natureza. No final de cada composição incluiremos a sua referência de catalogação, respondendo esta a um critério próprio do grupo de trabalho que tem vindo a organizar os preciosos achados. A apresentação das canções será por vezes acompanhada de uma imagem para efeiros de puro ornamento.

domingo, setembro 04, 2005



A manhã acordara fria, ainda que inundada de uma luz corajosa. Os raios transviados cedo haviam derretido o fino manto de gelo que a noite laboriosamente tecera. Fiquei uns bons vinte minutos à janela, na indecisão entre sair de casa ou voltar para cama. As árvores absolutamente despidas, no encantamento mórbido da frágil manhã de inverno, pareciam dizer-me podes vir visitar-nos, mas estarás sempre por tua conta e risco.

quarta-feira, agosto 31, 2005

Do outro lado do mar: Leonardo Gandolfi também gosta de tartarugas

Da tartaruga retirar a tartaruga;
deixá-la ser apenas a não-tartaruga.
Chove. As gotas molhariam o seu casco.
Eis o primeiro ciclo – o da falta.

A chuva insiste, toca as telhas de amianto.
A casa está fechada e quem está lá dentro
é a continuação da chuva e do amianto.
Esse, o segundo ciclo – o do gesto.

Junto da casa, um jardim. Ainda não.
Quem sabe, quando a chuva parar de insistir,
eu compreenda as regras da perspectiva.

O que se retirara retorna. Silêncio.
À tartaruga chega-se por paciência.
Terceiro ciclo – o das coisas repetidas.

Leonardo Gandolfi