sexta-feira, dezembro 09, 2005
Nota
Suspende-se pelo menos até ao início do próximo ano a transcrição de algumas composições do chamado Ciclo das Invocações (ver entrada do dia 11 de Setembro) dada a existência de alguns problemas inesperados no exame dos ditos textos.
segunda-feira, outubro 31, 2005
Lok
segunda-feira, outubro 24, 2005
Dustmoss
sábado, setembro 24, 2005
Fang
terça-feira, setembro 20, 2005
Madrillon
domingo, setembro 18, 2005
Bynor
quarta-feira, setembro 14, 2005
Ponitas
domingo, setembro 11, 2005
Canções de Guerra. Para uma Breve Introdução ao Longo Ciclo das Invocações
Lies will flow from my lips, but there may perhaps be some truth mixed up with them
Virginia Wolf, A Room of One's Own
Comecemos pelos factos, ainda que nem todos possam ser aqui expostos em toda a sua dimensão. Faz agora sensivelmente dois anos que conheci, em excelente companhia, a região alta de Glencoe, um dos mais extraordinários parques naturais que a Escócia oferece aos olhos de um visitante desprevenido. A viagem, abençoada por um inesperado sol de Setembro, tinha na altura dois propósitos bem definidos: conhecer uma paisagem natural deslumbrante e tomar contacto com uma das descobertas arqueológicas e filológicas mais significativas das últimas décadas: um largo conjunto de escritos recentemente descobertos numa pequena gruta da zona por um acidental trio de montanhistas. Várias dezenas de composições poéticas (pelo menos é o que aparentam ser), a cujo conjunto se deu na Escócia o nome de Duel Songs. Chamar-lhe-emos em português Ciclo das Invocações.
O grupo de estudo e trabalho entretanto constituído, ao qual tenho a imensa honra de pertencer, encontra-se ainda a braços com toda uma série de questões fundamentais, para as quais são maiores as suposições que efectivamente as respostas. A equipa encarregue da investigação arqueológica está neste emomento a preparar um primeiro artigo com conclusões prévias acerca de questões como datação, materiais de escrita e estados de conservação. O grupo de estudos filológicos, ao qual pertenço, encontra-se igualmente em condições de avançar algumas impressões, apesar do estado ainda embrionário dos trabalhos. Foi decidido logo de início, com minha total concordância, devo dizer, que o mais sensato seria em primeiro lugar procurar reconstituir os múltiplos textos, com uma possível e adicional adaptação para inglês mais corrente. Só depois, e à medida que o conteúdo e natureza formal das composições fosse ganhando contornos, poderiam ser avançadas considerações de ordem interpretativa acerca do ciclo. Fui autorizado a partilhar por este meio algumas dessas curtas impressões e, mais importante que isso, irei nos próximos tempos reproduzir aos poucos algumas destas "canções de guerra" em versão actualizada e adaptada.
O Ciclo das Invocações não terá sido escrito por um só autor, mas seguramente a várias mãos e no decurso de um relativamente curto espaço de tempo (não mais de uma década ou década e meia), provavelmente correspondendo a uma época de maior turbulência política externa. As várias composições que constituem o ciclo poderão não ter sido à partida concebidas para integrar um conjunto, ainda que seja aparente (quase notória) uma certa unidade formal entre elas. Isto leva a pensar que a sua produção deveria responder a um determinado modelo, ainda que mais ou menos flexível. Os poemas do Ciclo das Invocações parecem ter um cariz vincadamente bélico. Neles, a voz poética (perfeitamente indeterminada), parece exortar determinado soldado para uma acção de carácter militar ou, pelo menos, para uma manifestação dos seus poderes, afirmação do seu carácter, e até (pasme-se) confissão das suas turbulências interiores. Só esta curiosa coabitação de virilidade militar e sensibilidade dará concerteza material para vários volumes e inúmeros debates. O sujeito poético parece por isso identificar-se com uma chefia do exército ou com o próprio povo que deste modo celebra e apresenta os seus trunfos militares (nem todos do sexo masculino, atente-se). As produções poéticas seriam portanto escritas para declamação pública, possivelmente no contexto de um cerimonial específico, em circunstâncias bem determinadas. Isso poderá justificar o aparente modelo comum a todas elas: título (possivelmente o nome ou epíteto do guerreiro), estrofe principal maior com versos brancos de métrica irregular, estrofe final conclusiva de verso único.
As composições serão aqui progressivamente apresentadas para fruição pública e desejáveis comentários, independentemente da sua natureza. No final de cada composição incluiremos a sua referência de catalogação, respondendo esta a um critério próprio do grupo de trabalho que tem vindo a organizar os preciosos achados. A apresentação das canções será por vezes acompanhada de uma imagem para efeiros de puro ornamento.
domingo, setembro 04, 2005

A manhã acordara fria, ainda que inundada de uma luz corajosa. Os raios transviados cedo haviam derretido o fino manto de gelo que a noite laboriosamente tecera. Fiquei uns bons vinte minutos à janela, na indecisão entre sair de casa ou voltar para cama. As árvores absolutamente despidas, no encantamento mórbido da frágil manhã de inverno, pareciam dizer-me podes vir visitar-nos, mas estarás sempre por tua conta e risco.
quarta-feira, agosto 31, 2005
Do outro lado do mar: Leonardo Gandolfi também gosta de tartarugas
Da tartaruga retirar a tartaruga;
deixá-la ser apenas a não-tartaruga.
Chove. As gotas molhariam o seu casco.
Eis o primeiro ciclo – o da falta.
A chuva insiste, toca as telhas de amianto.
A casa está fechada e quem está lá dentro
é a continuação da chuva e do amianto.
Esse, o segundo ciclo – o do gesto.
Junto da casa, um jardim. Ainda não.
Quem sabe, quando a chuva parar de insistir,
eu compreenda as regras da perspectiva.
O que se retirara retorna. Silêncio.
À tartaruga chega-se por paciência.
Terceiro ciclo – o das coisas repetidas.
deixá-la ser apenas a não-tartaruga.
Chove. As gotas molhariam o seu casco.
Eis o primeiro ciclo – o da falta.
A chuva insiste, toca as telhas de amianto.
A casa está fechada e quem está lá dentro
é a continuação da chuva e do amianto.
Esse, o segundo ciclo – o do gesto.
Junto da casa, um jardim. Ainda não.
Quem sabe, quando a chuva parar de insistir,
eu compreenda as regras da perspectiva.
O que se retirara retorna. Silêncio.
À tartaruga chega-se por paciência.
Terceiro ciclo – o das coisas repetidas.
Leonardo Gandolfi
quarta-feira, julho 27, 2005
Por vezes pensava que podia continuar a caminhar eternamente, por esses montes, ao deus-dará, sem descanso e faminto, mas em sossego, como o judeu errante. De vez em quando dava uma ajuda na recolha do feno. Pagavam-lhe então com uma dormida. E, à noite, quando ficava sentado junto dos lavradores, que apagavam o candeeiro cedo para não gastar petróleo ou cera, pensava mal humorado: «Para que vive esta gente, afinal ?» Sentia saudades de música, de passos de marcha, de ordens de comando. Não apreciava aquela vida insípida que lhe escorregava por entre os dedos. Suspirava por alguma resistência brusca e violenta para poder esmagá-la com os pés, até que berrasse, gemesse e esguichasse sangue. Estava farto de proceder como um humilde submisso, de ser como a relva por entre o ancinho.
Anna Seghers, O Fim
terça-feira, julho 12, 2005
Cumprimentos para a Senhora Lisi

Acaba de sair o novo volume de poesia da brasileira Virna Teixeira. Após o título Visita e várias participações em diversas revistas literárias, chega-nos agora Distância. Virna Teixeira é também responsável pelo blog Papel de Rascunho (ver link). Palavras directas, como que suspensas no instante breve da sua duração. A escrita de quem já diz tanto com tão pouco. Reproduz-se aqui "Conversa":
CONVERSA
entre sombras de
árvores, a noite
relva, onde
pesadas as
palavras
desabam , como
frutos
pequenas esquimoses
sob as
polpas
segunda-feira, junho 27, 2005
Memorial ao desastre de Gretna

um casal de idosos cansados
calcorreia os caminhos estreitos
por entre campas do século passado
Rosebank Cemetery
mesmo diante da minha janela
onde, há falta de maior ousadia,
sequer arrisquei uma visita
evitam agora o portão mais a norte
decerto que buscam
alguém muito próximo
algum parente adormecido
um amigo distante
em Rosebank Cemetery
sob a luz que vai minguando
em frente à janela do quarto
também aqui repousam soldados
duzentos e vinte e sete
colhidos há muitos anos
perto da terra de gretna
por tragédia ferroviária
muitos eram daqui
bem perto do cemitério
viajavam para gallipoli
verdes irmãos de armas
não percorreram nesse dia
mais do que corre uma bala
o memorial é uma cruz de pedra
a poucos metros de onde me encontro
dúzias de corpos armados
escondidos da nossa memória
os velhos pararam num túmulo
estão vergados sobre a laje
depositam flores
e abandonam depois o jardim dos mortos
mas segundo suspeito
não por muito mais tempo
quarta-feira, junho 01, 2005
segunda-feira, maio 16, 2005
Jardim Botânico
não,
não estou aqui à espera que alguém me abrace
não estou sentado no velho banco a ver a gente que passa
não vim aqui para ler um livro
sequer para escrever estas linhas
não me plantei por entre estas árvores
por não ter outro espaço onde ficar sozinho
não estou aqui a pensar na vida
como é costume fazer-se em jardins
não vim assustar os pombos
ou as crianças pequenas
vim para me banhar do cheiro dos troncos largos
para apanhar sol e ar na minha face
e constatar se sempre é possivel
algumas nuvens se assemelharem a coisas terrenas
não estou aqui à espera que alguém me abrace
não estou sentado no velho banco a ver a gente que passa
não vim aqui para ler um livro
sequer para escrever estas linhas
não me plantei por entre estas árvores
por não ter outro espaço onde ficar sozinho
não estou aqui a pensar na vida
como é costume fazer-se em jardins
não vim assustar os pombos
ou as crianças pequenas
vim para me banhar do cheiro dos troncos largos
para apanhar sol e ar na minha face
e constatar se sempre é possivel
algumas nuvens se assemelharem a coisas terrenas
sábado, abril 30, 2005
segunda-feira, abril 25, 2005

A vida daquele indíviduo, assim espalhada nas longas páginas, plena de fantasiosas peripécias e profundas tiradas de alma, despertara nelas um interesse raro e genuíno. Em tudo semelhante àquela honesta curiosidade com que a criança encara pela primeira vez o fogo ou com que o moribundo entrevê a dimensão da eternidade.
sexta-feira, março 04, 2005
La era está pariendo un corazón
Le he perguntado a mi sombra
A ver como anda para reirme
Mientras el llanto con voz de templo
Rompe en la sala regando el tiempo
Mi sombra dice que reirse
es ver los llantos como mi llanto
y me he callado desesperado
Y escucho entonces: la tierra llora
La era está pariendo un corazón
No puede más, se muere de dolor
Y hay que acudir corriendo
Pues se cae el porvenir.
A cualquier selva del mundo
A cualquier calle.
Debo dejar la casa y el sillon.
La madre vive hasta que muere el sol
Y hay que quemar el cielo
Si es preciso por vivir.
Por cualquier hombre del mundo
Por cualquier casa.
Por cualquier casa...
A ver como anda para reirme
Mientras el llanto con voz de templo
Rompe en la sala regando el tiempo
Mi sombra dice que reirse
es ver los llantos como mi llanto
y me he callado desesperado
Y escucho entonces: la tierra llora
La era está pariendo un corazón
No puede más, se muere de dolor
Y hay que acudir corriendo
Pues se cae el porvenir.
A cualquier selva del mundo
A cualquier calle.
Debo dejar la casa y el sillon.
La madre vive hasta que muere el sol
Y hay que quemar el cielo
Si es preciso por vivir.
Por cualquier hombre del mundo
Por cualquier casa.
Por cualquier casa...
Silvio Rodríguez cantado por Soledad Bravo
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