segunda-feira, outubro 31, 2005

Lok



hunting creature
arise

initiate light
the invasion of time
the invasion of words

never before had fire that choice

(Duel Song 13/110)

segunda-feira, outubro 24, 2005

Dustmoss



when the battle returns to people
dustmoss choses
the liquid zone
deformer hand

nothing is quite what it seems

(Duel Song 13/55)

sábado, setembro 24, 2005

Fang



midnight fear breaks
red stars
the twinkling battle
watch out
there's an earth eater at night
mouth fang
double hand

choose a pair of night shields

(Duel Song 38/110)

terça-feira, setembro 20, 2005

Madrillon



see this creature
see this creature attack
the definition of battle
gel fish
coast giant

two creatures loosened
whenever you see madrillon

(Duel Song 37/110)

domingo, setembro 18, 2005

Bynor














legendary scopes
liquid spells
of wizard zones
immediately find out
that their opponent's
the worst

his brain the shield
his hand their curse

(Duel Song 19/55)

quarta-feira, setembro 14, 2005

Ponitas



water king
may you take water into your hand
whenever your opponent attacks
water creature
show your leviathan
search your water hand
take it away

you should have seen king ponitas

(Duel Song 17/55)

domingo, setembro 11, 2005

Canções de Guerra. Para uma Breve Introdução ao Longo Ciclo das Invocações

Lies will flow from my lips, but there may perhaps be some truth mixed up with them

Virginia Wolf, A Room of One's Own


Comecemos pelos factos, ainda que nem todos possam ser aqui expostos em toda a sua dimensão. Faz agora sensivelmente dois anos que conheci, em excelente companhia, a região alta de Glencoe, um dos mais extraordinários parques naturais que a Escócia oferece aos olhos de um visitante desprevenido. A viagem, abençoada por um inesperado sol de Setembro, tinha na altura dois propósitos bem definidos: conhecer uma paisagem natural deslumbrante e tomar contacto com uma das descobertas arqueológicas e filológicas mais significativas das últimas décadas: um largo conjunto de escritos recentemente descobertos numa pequena gruta da zona por um acidental trio de montanhistas. Várias dezenas de composições poéticas (pelo menos é o que aparentam ser), a cujo conjunto se deu na Escócia o nome de Duel Songs. Chamar-lhe-emos em português Ciclo das Invocações.
O grupo de estudo e trabalho entretanto constituído, ao qual tenho a imensa honra de pertencer, encontra-se ainda a braços com toda uma série de questões fundamentais, para as quais são maiores as suposições que efectivamente as respostas. A equipa encarregue da investigação arqueológica está neste emomento a preparar um primeiro artigo com conclusões prévias acerca de questões como datação, materiais de escrita e estados de conservação. O grupo de estudos filológicos, ao qual pertenço, encontra-se igualmente em condições de avançar algumas impressões, apesar do estado ainda embrionário dos trabalhos. Foi decidido logo de início, com minha total concordância, devo dizer, que o mais sensato seria em primeiro lugar procurar reconstituir os múltiplos textos, com uma possível e adicional adaptação para inglês mais corrente. Só depois, e à medida que o conteúdo e natureza formal das composições fosse ganhando contornos, poderiam ser avançadas considerações de ordem interpretativa acerca do ciclo. Fui autorizado a partilhar por este meio algumas dessas curtas impressões e, mais importante que isso, irei nos próximos tempos reproduzir aos poucos algumas destas "canções de guerra" em versão actualizada e adaptada.
O Ciclo das Invocações não terá sido escrito por um só autor, mas seguramente a várias mãos e no decurso de um relativamente curto espaço de tempo (não mais de uma década ou década e meia), provavelmente correspondendo a uma época de maior turbulência política externa. As várias composições que constituem o ciclo poderão não ter sido à partida concebidas para integrar um conjunto, ainda que seja aparente (quase notória) uma certa unidade formal entre elas. Isto leva a pensar que a sua produção deveria responder a um determinado modelo, ainda que mais ou menos flexível. Os poemas do Ciclo das Invocações parecem ter um cariz vincadamente bélico. Neles, a voz poética (perfeitamente indeterminada), parece exortar determinado soldado para uma acção de carácter militar ou, pelo menos, para uma manifestação dos seus poderes, afirmação do seu carácter, e até (pasme-se) confissão das suas turbulências interiores. Só esta curiosa coabitação de virilidade militar e sensibilidade dará concerteza material para vários volumes e inúmeros debates. O sujeito poético parece por isso identificar-se com uma chefia do exército ou com o próprio povo que deste modo celebra e apresenta os seus trunfos militares (nem todos do sexo masculino, atente-se). As produções poéticas seriam portanto escritas para declamação pública, possivelmente no contexto de um cerimonial específico, em circunstâncias bem determinadas. Isso poderá justificar o aparente modelo comum a todas elas: título (possivelmente o nome ou epíteto do guerreiro), estrofe principal maior com versos brancos de métrica irregular, estrofe final conclusiva de verso único.
As composições serão aqui progressivamente apresentadas para fruição pública e desejáveis comentários, independentemente da sua natureza. No final de cada composição incluiremos a sua referência de catalogação, respondendo esta a um critério próprio do grupo de trabalho que tem vindo a organizar os preciosos achados. A apresentação das canções será por vezes acompanhada de uma imagem para efeiros de puro ornamento.

domingo, setembro 04, 2005



A manhã acordara fria, ainda que inundada de uma luz corajosa. Os raios transviados cedo haviam derretido o fino manto de gelo que a noite laboriosamente tecera. Fiquei uns bons vinte minutos à janela, na indecisão entre sair de casa ou voltar para cama. As árvores absolutamente despidas, no encantamento mórbido da frágil manhã de inverno, pareciam dizer-me podes vir visitar-nos, mas estarás sempre por tua conta e risco.

quarta-feira, agosto 31, 2005

Do outro lado do mar: Leonardo Gandolfi também gosta de tartarugas

Da tartaruga retirar a tartaruga;
deixá-la ser apenas a não-tartaruga.
Chove. As gotas molhariam o seu casco.
Eis o primeiro ciclo – o da falta.

A chuva insiste, toca as telhas de amianto.
A casa está fechada e quem está lá dentro
é a continuação da chuva e do amianto.
Esse, o segundo ciclo – o do gesto.

Junto da casa, um jardim. Ainda não.
Quem sabe, quando a chuva parar de insistir,
eu compreenda as regras da perspectiva.

O que se retirara retorna. Silêncio.
À tartaruga chega-se por paciência.
Terceiro ciclo – o das coisas repetidas.

Leonardo Gandolfi

Fogo Intenso



Children wake up,
hold your mistake up,
before they turn the summer into dust.

sexta-feira, julho 29, 2005


Óscar. O cão-maravilha. Quero afagar-lhe o pêlo, dar-lhe beijos imensos. Sentir uma pata sobre o meu corpo, rebolar com ele sobre a erva húmida da manhã. O cão distante. E perguntar-lhe: Hey boy? Queres ser meu amigo?

quarta-feira, julho 27, 2005

Por vezes pensava que podia continuar a caminhar eternamente, por esses montes, ao deus-dará, sem descanso e faminto, mas em sossego, como o judeu errante. De vez em quando dava uma ajuda na recolha do feno. Pagavam-lhe então com uma dormida. E, à noite, quando ficava sentado junto dos lavradores, que apagavam o candeeiro cedo para não gastar petróleo ou cera, pensava mal humorado: «Para que vive esta gente, afinal ?» Sentia saudades de música, de passos de marcha, de ordens de comando. Não apreciava aquela vida insípida que lhe escorregava por entre os dedos. Suspirava por alguma resistência brusca e violenta para poder esmagá-la com os pés, até que berrasse, gemesse e esguichasse sangue. Estava farto de proceder como um humilde submisso, de ser como a relva por entre o ancinho.

Anna Seghers, O Fim

terça-feira, julho 12, 2005

Cumprimentos para a Senhora Lisi



Acaba de sair o novo volume de poesia da brasileira Virna Teixeira. Após o título Visita e várias participações em diversas revistas literárias, chega-nos agora Distância. Virna Teixeira é também responsável pelo blog Papel de Rascunho (ver link). Palavras directas, como que suspensas no instante breve da sua duração. A escrita de quem já diz tanto com tão pouco. Reproduz-se aqui "Conversa":

CONVERSA

entre sombras de
árvores, a noite

relva, onde
pesadas as
palavras

desabam , como
frutos

pequenas esquimoses
sob as
polpas

segunda-feira, junho 27, 2005

Memorial ao desastre de Gretna




um casal de idosos cansados
calcorreia os caminhos estreitos
por entre campas do século passado

Rosebank Cemetery
mesmo diante da minha janela
onde, há falta de maior ousadia,
sequer arrisquei uma visita

evitam agora o portão mais a norte
decerto que buscam
alguém muito próximo
algum parente adormecido
um amigo distante

em Rosebank Cemetery
sob a luz que vai minguando
em frente à janela do quarto

também aqui repousam soldados
duzentos e vinte e sete
colhidos há muitos anos
perto da terra de gretna
por tragédia ferroviária

muitos eram daqui
bem perto do cemitério
viajavam para gallipoli
verdes irmãos de armas
não percorreram nesse dia
mais do que corre uma bala

o memorial é uma cruz de pedra
a poucos metros de onde me encontro
dúzias de corpos armados
escondidos da nossa memória

os velhos pararam num túmulo
estão vergados sobre a laje
depositam flores
e abandonam depois o jardim dos mortos
mas segundo suspeito
não por muito mais tempo

quarta-feira, junho 01, 2005

é simpático, disseste
irrequieto

e nada mais acrescentaste a uma apreciação fugidia

nada mais quiseste fazer do meu corpo
que olhá-lo com cortesia
e tecer-lhe um comentário

segunda-feira, maio 16, 2005

Jardim Botânico

não,
não estou aqui à espera que alguém me abrace
não estou sentado no velho banco a ver a gente que passa
não vim aqui para ler um livro
sequer para escrever estas linhas
não me plantei por entre estas árvores
por não ter outro espaço onde ficar sozinho
não estou aqui a pensar na vida
como é costume fazer-se em jardins
não vim assustar os pombos
ou as crianças pequenas

vim para me banhar do cheiro dos troncos largos
para apanhar sol e ar na minha face
e constatar se sempre é possivel
algumas nuvens se assemelharem a coisas terrenas

sábado, abril 30, 2005


lua inchada
incandescente

no enquadramento sólido
da janela do meu quarto

lua minha
como que
só para mim

húmida
gigantesca cona de luz

segunda-feira, abril 25, 2005


A vida daquele indíviduo, assim espalhada nas longas páginas, plena de fantasiosas peripécias e profundas tiradas de alma, despertara nelas um interesse raro e genuíno. Em tudo semelhante àquela honesta curiosidade com que a criança encara pela primeira vez o fogo ou com que o moribundo entrevê a dimensão da eternidade.

sexta-feira, março 04, 2005

La era está pariendo un corazón

Le he perguntado a mi sombra
A ver como anda para reirme
Mientras el llanto con voz de templo
Rompe en la sala regando el tiempo

Mi sombra dice que reirse
es ver los llantos como mi llanto
y me he callado desesperado
Y escucho entonces: la tierra llora

La era está pariendo un corazón
No puede más, se muere de dolor
Y hay que acudir corriendo
Pues se cae el porvenir.

A cualquier selva del mundo
A cualquier calle.

Debo dejar la casa y el sillon.
La madre vive hasta que muere el sol
Y hay que quemar el cielo
Si es preciso por vivir.

Por cualquier hombre del mundo
Por cualquier casa.
Por cualquier casa...


Silvio Rodríguez cantado por Soledad Bravo

quinta-feira, março 03, 2005

Nove

Estão dois homens fardados a dez metros de uma encruzilhada deserta. Cada um traz uma espingarda suja da poeira da estrada. E um cantil de água morna, transportado à tira colo. Foi-lhes construído há mês e meio aquele ponto de vigia cansado. Um albergue apertado, erguido a madeira e pregos, embandeirado no topo, ausente. Matam o tempo a esquivar-se ao medo e ao silêncio. Conhecem de cor a paisagem. Partilham os parcos mantimentos e pela noite acendem juntos um fogo inocente. Há dois dias que os rádios deixaram de emitir instruções. Há dois dias que nada sabem da cidade ou do futuro. Encontram-se a dez metros da encruzilhada. Fardados e escassos de munições. Um deles limpa o suor do rosto e por momentos repara na cor esbatida do horizonte. Amanhã pelo entardecer começarão a ouvir uns tiros ao longe, vindos do lado da cidade. E misturados com o som das balas, os grãos de poeira levantados pelo vento contra casebre. Irão recolher-se ao refúgio para limpar as espingardas e carregá-las de medo.