domingo, setembro 04, 2005



A manhã acordara fria, ainda que inundada de uma luz corajosa. Os raios transviados cedo haviam derretido o fino manto de gelo que a noite laboriosamente tecera. Fiquei uns bons vinte minutos à janela, na indecisão entre sair de casa ou voltar para cama. As árvores absolutamente despidas, no encantamento mórbido da frágil manhã de inverno, pareciam dizer-me podes vir visitar-nos, mas estarás sempre por tua conta e risco.

quarta-feira, agosto 31, 2005

Do outro lado do mar: Leonardo Gandolfi também gosta de tartarugas

Da tartaruga retirar a tartaruga;
deixá-la ser apenas a não-tartaruga.
Chove. As gotas molhariam o seu casco.
Eis o primeiro ciclo – o da falta.

A chuva insiste, toca as telhas de amianto.
A casa está fechada e quem está lá dentro
é a continuação da chuva e do amianto.
Esse, o segundo ciclo – o do gesto.

Junto da casa, um jardim. Ainda não.
Quem sabe, quando a chuva parar de insistir,
eu compreenda as regras da perspectiva.

O que se retirara retorna. Silêncio.
À tartaruga chega-se por paciência.
Terceiro ciclo – o das coisas repetidas.

Leonardo Gandolfi

Fogo Intenso



Children wake up,
hold your mistake up,
before they turn the summer into dust.

sexta-feira, julho 29, 2005


Óscar. O cão-maravilha. Quero afagar-lhe o pêlo, dar-lhe beijos imensos. Sentir uma pata sobre o meu corpo, rebolar com ele sobre a erva húmida da manhã. O cão distante. E perguntar-lhe: Hey boy? Queres ser meu amigo?

quarta-feira, julho 27, 2005

Por vezes pensava que podia continuar a caminhar eternamente, por esses montes, ao deus-dará, sem descanso e faminto, mas em sossego, como o judeu errante. De vez em quando dava uma ajuda na recolha do feno. Pagavam-lhe então com uma dormida. E, à noite, quando ficava sentado junto dos lavradores, que apagavam o candeeiro cedo para não gastar petróleo ou cera, pensava mal humorado: «Para que vive esta gente, afinal ?» Sentia saudades de música, de passos de marcha, de ordens de comando. Não apreciava aquela vida insípida que lhe escorregava por entre os dedos. Suspirava por alguma resistência brusca e violenta para poder esmagá-la com os pés, até que berrasse, gemesse e esguichasse sangue. Estava farto de proceder como um humilde submisso, de ser como a relva por entre o ancinho.

Anna Seghers, O Fim

terça-feira, julho 12, 2005

Cumprimentos para a Senhora Lisi



Acaba de sair o novo volume de poesia da brasileira Virna Teixeira. Após o título Visita e várias participações em diversas revistas literárias, chega-nos agora Distância. Virna Teixeira é também responsável pelo blog Papel de Rascunho (ver link). Palavras directas, como que suspensas no instante breve da sua duração. A escrita de quem já diz tanto com tão pouco. Reproduz-se aqui "Conversa":

CONVERSA

entre sombras de
árvores, a noite

relva, onde
pesadas as
palavras

desabam , como
frutos

pequenas esquimoses
sob as
polpas

segunda-feira, junho 27, 2005

Memorial ao desastre de Gretna




um casal de idosos cansados
calcorreia os caminhos estreitos
por entre campas do século passado

Rosebank Cemetery
mesmo diante da minha janela
onde, há falta de maior ousadia,
sequer arrisquei uma visita

evitam agora o portão mais a norte
decerto que buscam
alguém muito próximo
algum parente adormecido
um amigo distante

em Rosebank Cemetery
sob a luz que vai minguando
em frente à janela do quarto

também aqui repousam soldados
duzentos e vinte e sete
colhidos há muitos anos
perto da terra de gretna
por tragédia ferroviária

muitos eram daqui
bem perto do cemitério
viajavam para gallipoli
verdes irmãos de armas
não percorreram nesse dia
mais do que corre uma bala

o memorial é uma cruz de pedra
a poucos metros de onde me encontro
dúzias de corpos armados
escondidos da nossa memória

os velhos pararam num túmulo
estão vergados sobre a laje
depositam flores
e abandonam depois o jardim dos mortos
mas segundo suspeito
não por muito mais tempo

quarta-feira, junho 01, 2005

é simpático, disseste
irrequieto

e nada mais acrescentaste a uma apreciação fugidia

nada mais quiseste fazer do meu corpo
que olhá-lo com cortesia
e tecer-lhe um comentário

segunda-feira, maio 16, 2005

Jardim Botânico

não,
não estou aqui à espera que alguém me abrace
não estou sentado no velho banco a ver a gente que passa
não vim aqui para ler um livro
sequer para escrever estas linhas
não me plantei por entre estas árvores
por não ter outro espaço onde ficar sozinho
não estou aqui a pensar na vida
como é costume fazer-se em jardins
não vim assustar os pombos
ou as crianças pequenas

vim para me banhar do cheiro dos troncos largos
para apanhar sol e ar na minha face
e constatar se sempre é possivel
algumas nuvens se assemelharem a coisas terrenas

sábado, abril 30, 2005


lua inchada
incandescente

no enquadramento sólido
da janela do meu quarto

lua minha
como que
só para mim

húmida
gigantesca cona de luz

segunda-feira, abril 25, 2005


A vida daquele indíviduo, assim espalhada nas longas páginas, plena de fantasiosas peripécias e profundas tiradas de alma, despertara nelas um interesse raro e genuíno. Em tudo semelhante àquela honesta curiosidade com que a criança encara pela primeira vez o fogo ou com que o moribundo entrevê a dimensão da eternidade.

sexta-feira, março 04, 2005

La era está pariendo un corazón

Le he perguntado a mi sombra
A ver como anda para reirme
Mientras el llanto con voz de templo
Rompe en la sala regando el tiempo

Mi sombra dice que reirse
es ver los llantos como mi llanto
y me he callado desesperado
Y escucho entonces: la tierra llora

La era está pariendo un corazón
No puede más, se muere de dolor
Y hay que acudir corriendo
Pues se cae el porvenir.

A cualquier selva del mundo
A cualquier calle.

Debo dejar la casa y el sillon.
La madre vive hasta que muere el sol
Y hay que quemar el cielo
Si es preciso por vivir.

Por cualquier hombre del mundo
Por cualquier casa.
Por cualquier casa...


Silvio Rodríguez cantado por Soledad Bravo

quinta-feira, março 03, 2005

Nove

Estão dois homens fardados a dez metros de uma encruzilhada deserta. Cada um traz uma espingarda suja da poeira da estrada. E um cantil de água morna, transportado à tira colo. Foi-lhes construído há mês e meio aquele ponto de vigia cansado. Um albergue apertado, erguido a madeira e pregos, embandeirado no topo, ausente. Matam o tempo a esquivar-se ao medo e ao silêncio. Conhecem de cor a paisagem. Partilham os parcos mantimentos e pela noite acendem juntos um fogo inocente. Há dois dias que os rádios deixaram de emitir instruções. Há dois dias que nada sabem da cidade ou do futuro. Encontram-se a dez metros da encruzilhada. Fardados e escassos de munições. Um deles limpa o suor do rosto e por momentos repara na cor esbatida do horizonte. Amanhã pelo entardecer começarão a ouvir uns tiros ao longe, vindos do lado da cidade. E misturados com o som das balas, os grãos de poeira levantados pelo vento contra casebre. Irão recolher-se ao refúgio para limpar as espingardas e carregá-las de medo.

quarta-feira, março 02, 2005

Bambi

mais vale no forno
regado por
tinto encorpado
do que em filme
ou desenho ilustrado
regado pelas lágrimas
pelo olhar incrédulo
das nossas crianças

sexta-feira, fevereiro 25, 2005


De certo modo, as ramagens frondosas do largo arvoredo pareciam aos nossos olhos encenar um majestoso espectáculo de cor e movimento. A suave crispação dos ramos e folhas ameaçava adormecer-nos, no embalo tranquilo do fim de tarde.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005


Apesar do seu aspecto humilde e convencional, era sabido na região que o velho casebre abandonado continha segredos ancestrais. O nevoeiro intenso que se fazia sentir dava a todos os contornos uma aura de profunda maldição.

terça-feira, fevereiro 22, 2005


Haviam concluído durante a viagem que as causas da inevitável indeterminação da natureza humana residiam acima de tudo no próprio ser e não em qualquer fundamental deficiência do corpo teórico utilizado para a apreciação do problema em questão. Mais do que alívio ou entusiasmo, esta conclusão deixara neles um desconforto cruel, uma apreensão indizível.

Zurbitan cedo se apercebera da capacidade psíquica que possuía para torcer e trucidar troncos de árvores, independentemente de tipo ou tamanho.

sábado, fevereiro 19, 2005

I'm thinking about the future. Our children will imagine us great heroes, and will create legends about us. And even our ordinary daily existence and our hunger, the forced idleness in production, even the watch you and I are keeping tonight - all will be raised to a higher power, as they say in mathematics. It will all be reflected in their imagination as an epoch of heroic exploits and titanic achievements. And we - you and I - little grains of dust in an immense mass, we shall seem to them as giants. The past is always generalised and exaggerated. They won't remember our mistakes, cruelties, failures, weaknesses, our simple human sufferings and our damnable problems. They will say: "These were the people who were destined to conquer the whole world." And they will visit our graves as if we were inextinguishable beacons.
Fyodor Vasilievich Gladkov, Cement

quinta-feira, dezembro 09, 2004

O Segredo e a Verdade (Conclusão)

7. O lugar da verdade é absolutamente secreto. Só o segredo é absolutamente verdadeiro. Gerações sucedem-se e a verdade de todas as verdades permanece inabalável porque secreta. Se não nos é acessível então é porque concerteza contem a explicação de todas as coisas. Todas as simbolizações ou asserções críticas da pequenez humana baseiam-se em premissas deste género. O lugar da verdade (origem, autoridade, conteúdo) é absolutamente incorpóreo. A noção absolutamente fantástica de que o nosso pensamento depende intimamente de processos exclusivamente biológicos é prova disso mesmo. E isto porque o pensamento é incapaz de nos conduzir à maior de todas as revelações. A correlação tantas vezes sublinhada entre espírito e matéria, apesar de abismal e misteriosa (há células que pensam!), leva-nos a pensar que não fora o corpo e há muito que teríamos já deslindado o enigma subjacente a todos os enigmas. Os relatos de experiências post-mortem constituem algo cujo valor não parece seduzir a maioria das pessoas. É razoável depreender que os nossos pequenos jogos de linguagem e representação resultam numa diversão bem mais atractiva. Caso a esfera de valores ocidentais não permeasse de forma tão avassaladora o nosso comportamento crítico, as experiências post-mortem seriam neste momento o assunto central das mais crucial das disciplinas. Por entre relatos vagos e reticentes (a linguagem é neste contexto um instrumento escasso dada a sua natureza anatómica), duas ocorrências parecem ser comuns a todos os indivíduos sujeitos a semelhantes episódios: a alma liberta-se do corpo, movimentando-se em altura e deixando para trás a matéria; as coisas todas, da mais pequena dúvida ao problema mais enigmático, ganham um sentido inequívoco, simples e apaziguador. Como diz Bourdieu nas suas Rules of Art, "if there is a truth, it is that truth is a stake in the struggle", e quem sabe um generoso crédito a cobrar depois da morte.