sei bem que a viste
vi que estavas a meu lado:
uma terrível faixa afogueada
de um dourado intenso, quase cegante
cortava pela base o céu inteiro
um céu matutino
carregado de água
ao primeiro olhar
não pude bem crer
em tamanha violência
em tão voraz contraste
um espinho atravessado na manhã escura
não seria de esperar ouvir
gritos, ao menos
lamentos e gemidos
ainda que breves?
o espectáculo durou outra hora
até à extinção triste
de uma luz que não pode sobrar
a tudo assisti da minha cama
e devido a lesão no pé direito
não mais pude almejar
que os limites da janela
tu saíste para a rua
foste, como se diz,
à tua vida
para ver que extensões poderia tomar
a rebelião do fogo
sobre o carro de chuvas e ventos
sexta-feira, novembro 12, 2004
quinta-feira, novembro 11, 2004
Vi ontem The Glas Menagerie de Tennessee Williams no Bedlam Theatre de Edimburgo. Amanda Wingfield é uma matrona simpática e lutadora, abandonada há alguns anos pelo esposo. Este, do qual permanece ainda um portentoso retrato, trabalhava para a companhia de telefones e decidira um dia pura e simplesmente não mais voltar para a família. Andaria talvez pelo mundo, parando em todo o lado menos em casa. Amanda refere-se ao marido de uma forma absolutamente genial: a telephone man who fell in love with long distances.
quarta-feira, novembro 10, 2004
terça-feira, novembro 09, 2004
O Wertheimer não tinha qualquer outra opção senão matar-se depois que a irmã o deixou, pensava eu. Quis publicar um livro mas nunca o chegou a fazer, porque estava continuamente a fazer alterações no manuscrito, e fez tantas e tão grandes que, por fim, do manuscrito já nada restava, a alteração do manuscrito nada mais era do que a eliminação total do manuscrito, do qual por fim nada mais ficou do que o título O Náufrago. Agora tenho apenas o título, disse-me ele, assim é que está bem. Não sei se terei forças para escrever um segundo livro, parece-me que não, dissera ele, se O Náufrago tivesse sido publicado, disse ele, pensei, teria sido obrigado a matar-me.
THOMAS BERNHARD, O Náufrago
THOMAS BERNHARD, O Náufrago
sexta-feira, novembro 05, 2004
A fuga dos carvalhos para norte
Vou confessar-vos uma coisa, sem falsas modéstias ou rodeios escusados: vivo e procuro viver em comunhão com a natureza. Outros haverá como eu. Para muitos será uma opção de vida, tomada com seriedade e dedicação. Para mim é uma necessidade, uma pulsão espontânea que foi cá dentro criando o seu espaço. Veio a tornar-se um imperativo de tal ordem, que não sei mesmo quanto tempo mais poderei suportar viver neste cancro urbano de ares exaustos. Até à hora da mudança vou satisfazendo estes pulmões mirrados com regulares escapadas ao campo, fonte de sossego e boas energias. Empreendo longas caminhadas, sozinho ou comigo mesmo, pelos frondosos bosques das cercanias desta urbe. É nessas alturas que vou buscar o ânimo de existência, de que tantas vezes me encontrei já escasso. Enceto trilhos por entre formações rochosas, sobre o manto torrado de folhinhas e ramos. Vou atrás do canto da passarada ou de um qualquer ruído de animais, seguindo-lhes o rasto para lhes contemplar as cores e as formas. Deixo vir banhar as minhas faces a luz que irrompe a custo por entre ramagens de verdes e dourados. Reconheço na mãe natura a minha voz primeira, a química dos meus sentidos, a perfeição das criações.
Terá sido uma manhã dessas, um fim de tarde, pouco importa. Passou por mim, flamejante, uma fileira alvoraçada de carvalhos vistosos, sobranceiros. Os troncos grossíssimos, os ramos ferozes. A imponência da natureza em explosão. Não passavam excessivamente rápidos. Mas como vinham bem enfileirados! Distintíssimos! Coloquei-me à beira do caminho que tomavam, queria vê-los de perto. A flora fascina-me, grande ou pequena. Ardia por ser também eu um pedaço de tudo aquilo, elemento integrante daquele teatro monumental. Sem medo ou pejo acabei por montar um dos carvalhos. Decidi-me por um deles, tirei-lhe as medidas e acompanhei por alguns metros o ritmo da sua passada. Identifiquei depois os ramos que me pudessem fazer subir à folhagem e analisei o espaço que lá em cima poderia ter para me acomodar. E para lá trepei, não sem dificuldade, abalroado pelos movimentos ritmados daquela árvore. Uma vez lá em cima, acomodado por três grossos ramos, decidi meter alguma conversa. Julguei poder criar os laços de uma nova amizade. Imaginava como gostavria de poder falar com os carvalhos imensos. E até de ter particulares com as suas partes. Segredar uma história às folhagens, gozar com os ramos, gritar ao tronco o poder do seu tamanho, quem sabe um flirt com as raízes corredoras. Eu bem sei que os carvalhos não falam. Eu sempre soube. Ainda assim, montado num deles e a toda a sela, percebi que fugiam. Atrevi-me a perguntar para onde. Mas os carvalhos em fuga nunca nos dizem o seu destino. O que é certo é que a palavra norte andava espalhada por todos os palmos daqueles corpos vigorosos. Eu vi o norte por toda aquela constelação de ocres húmidos. Em fuga.
Terá sido uma manhã dessas, um fim de tarde, pouco importa. Passou por mim, flamejante, uma fileira alvoraçada de carvalhos vistosos, sobranceiros. Os troncos grossíssimos, os ramos ferozes. A imponência da natureza em explosão. Não passavam excessivamente rápidos. Mas como vinham bem enfileirados! Distintíssimos! Coloquei-me à beira do caminho que tomavam, queria vê-los de perto. A flora fascina-me, grande ou pequena. Ardia por ser também eu um pedaço de tudo aquilo, elemento integrante daquele teatro monumental. Sem medo ou pejo acabei por montar um dos carvalhos. Decidi-me por um deles, tirei-lhe as medidas e acompanhei por alguns metros o ritmo da sua passada. Identifiquei depois os ramos que me pudessem fazer subir à folhagem e analisei o espaço que lá em cima poderia ter para me acomodar. E para lá trepei, não sem dificuldade, abalroado pelos movimentos ritmados daquela árvore. Uma vez lá em cima, acomodado por três grossos ramos, decidi meter alguma conversa. Julguei poder criar os laços de uma nova amizade. Imaginava como gostavria de poder falar com os carvalhos imensos. E até de ter particulares com as suas partes. Segredar uma história às folhagens, gozar com os ramos, gritar ao tronco o poder do seu tamanho, quem sabe um flirt com as raízes corredoras. Eu bem sei que os carvalhos não falam. Eu sempre soube. Ainda assim, montado num deles e a toda a sela, percebi que fugiam. Atrevi-me a perguntar para onde. Mas os carvalhos em fuga nunca nos dizem o seu destino. O que é certo é que a palavra norte andava espalhada por todos os palmos daqueles corpos vigorosos. Eu vi o norte por toda aquela constelação de ocres húmidos. Em fuga.
terça-feira, agosto 03, 2004
agora que te aproximas
que para além de um nome,
de uma ideia, és
quase corpo
contorno
textura
agora que já um cheiro
te precede
e que uma voz alvoraçada
me avisa da tua chegada
agora que prestes estamos
a partilhar cama e prato
e mais nada importa
que o calor do nosso espaço
agora sim,
é possível ser-se
inevitavelmente
que para além de um nome,
de uma ideia, és
quase corpo
contorno
textura
agora que já um cheiro
te precede
e que uma voz alvoraçada
me avisa da tua chegada
agora que prestes estamos
a partilhar cama e prato
e mais nada importa
que o calor do nosso espaço
agora sim,
é possível ser-se
inevitavelmente
segunda-feira, julho 12, 2004
sábado, julho 10, 2004
Oito
Eu não conheci o thomas bernhard, mas tenho uma certa pena. Quando ele faleceu era eu apenas um rapazola. É porém perfeitamente provável que, se eu não fosse apenas uma criança ou ele não tivesse falecido em oitenta e nove, acabássemos os dois por travar conhecimento. Gostava de poder saber se alguma vez teria sido possível entre nós uma amizade sincera. Talvez eu tivesse podido de algum modo contribuir para a composição do grande texto sobre mendelssohn bartholdy. Talvez ele pudesse ter sido para mim um bom amigo. Julgo que tenho pena do seu corpo frágil. Não sei bem. Admiro a forma, devoro o signo. Mas o conteúdo em bernhard, apesar da ironia ou do gracejo, traz-me amargura e amargura apenas.
quinta-feira, julho 08, 2004
in Just-
spring the world is mud-
luscious the little
lame baloonman
whistles far and wee
and eddieandbill come
running from marbles and
piracies and it's
spring
when the world is puddle-wonderful
the queer
old baloonman whistles
far and wee
and bettyandisbel come dancing
from hop-scotch and jump-rope and
it's
spring
and
the
goat-footed
baloonMan whistles
far
and
wee
e.e. cummings
spring the world is mud-
luscious the little
lame baloonman
whistles far and wee
and eddieandbill come
running from marbles and
piracies and it's
spring
when the world is puddle-wonderful
the queer
old baloonman whistles
far and wee
and bettyandisbel come dancing
from hop-scotch and jump-rope and
it's
spring
and
the
goat-footed
baloonMan whistles
far
and
wee
e.e. cummings
terça-feira, junho 29, 2004
Numa das minha visitas à recente feira do livro em lisboa, não pude deixar de reparar numa colorida edição em capa dura, exposta numa das piorzinhas barracas que por lá se encontravam. O Livro dos Porquês. Fiquei perplexo com a desmesurada ambição de semelhante projecto editorial. Em todo o caso, um livro desta natureza, concebido com o maior dos rigores e a mais pura honestidade, seguramente resolveria a parte maior dos meus problemas e aflições.
segunda-feira, junho 28, 2004
A um melro
melro gordo
bicho de penas férreas
que insistes no choro
pela manhã
aos primeiros assomos do dia
e tratas a existência
com o vagar dos simples animais
tiveste azar, meu pobre amigo
não costumam ser certeiras
pedradas de tão longe
bicho de penas férreas
que insistes no choro
pela manhã
aos primeiros assomos do dia
e tratas a existência
com o vagar dos simples animais
tiveste azar, meu pobre amigo
não costumam ser certeiras
pedradas de tão longe
domingo, junho 27, 2004
Segundo poema da infância
Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
... Como nasci poeta
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.
Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira
que levou o chapéu do Senhor Administrador!
Em toda a vila
se falou logo num caso de política;
O Senhor Administrador
mandou vir da cidade uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...
Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!
MANUEL DA FONSECA
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
... Como nasci poeta
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.
Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira
que levou o chapéu do Senhor Administrador!
Em toda a vila
se falou logo num caso de política;
O Senhor Administrador
mandou vir da cidade uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...
Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!
MANUEL DA FONSECA
quarta-feira, abril 28, 2004
Sete
Num momento inesperado, a lembrança de tempos meio esquecidos. A condição dos meus joelhos, observados com perplexidade, marcou-me o fim da infância. Lembro como um dia reparei na penugem mínima que me cobria as rótulas. Notei como já tanto tempo passara desde a última ferida. Como já quase esquecera a textura de crostas vermelhas. Os jogos da bola, as rasteiras, as aterragens perigosas. A minha infância vagarosa havia sempre deixado marcas nestes joelhos carnudos. E recordo esse preciso momento, a constatação triste de uns joelhos incólumes, esquecidos das emoções do recreio.
domingo, abril 18, 2004
aflige-te algo
vindo da rua.
suspeitas que alguém
parado lá fora
examina o rebordo
da tua portada.
e que busca o ensejo
de irromper pela sala
e vir junto a ti
com palavras na boca
fazer-te maldades
suspeitas que alguém
ainda que vil
tenciona contigo
fazer uso da língua
e com rudes esbracejos
sancionar finalmente
a tua vaga existência
mas no fundo conheces
a dimensão trágica
de tamanho engano
vindo da rua.
suspeitas que alguém
parado lá fora
examina o rebordo
da tua portada.
e que busca o ensejo
de irromper pela sala
e vir junto a ti
com palavras na boca
fazer-te maldades
suspeitas que alguém
ainda que vil
tenciona contigo
fazer uso da língua
e com rudes esbracejos
sancionar finalmente
a tua vaga existência
mas no fundo conheces
a dimensão trágica
de tamanho engano
domingo, fevereiro 29, 2004
Seis
Junto à pequena esplanada, sob a ameaça de uma chuva inesperada, pai e filho jogam à bola. O miúdo exibe o compreensível egoísmo dos putos pequenos: quase não chuta para golo, envolvendo-se em fintas inconsequentes cujo êxito vai dependendo da natural benevolência paterna. Trata-se de um desinteressante baliza a baliza, de guarda-redes adiantados. Ainda assim não consigo tirar os olhos do jogo.
A dada altura, e após mais uma das tristes incursões do pequeno artista, o jovem pai vê-se na situação de poder picar a bola sobre o inexperiente adversário, perante a baliza escancarada. "Volta para a baliza, vá, corre!". O miúdo parece desorientado, meio correndo, meio esperando pelo inevitável chapéu. "Ainda não, pai! Espera! Ainda não!"
Perante tudo isto recupero da memória um certo desafio no campo da reboleira. Terão sido estas também as palavras de baía ao implacável júlio césar?
A dada altura, e após mais uma das tristes incursões do pequeno artista, o jovem pai vê-se na situação de poder picar a bola sobre o inexperiente adversário, perante a baliza escancarada. "Volta para a baliza, vá, corre!". O miúdo parece desorientado, meio correndo, meio esperando pelo inevitável chapéu. "Ainda não, pai! Espera! Ainda não!"
Perante tudo isto recupero da memória um certo desafio no campo da reboleira. Terão sido estas também as palavras de baía ao implacável júlio césar?
terça-feira, fevereiro 24, 2004
terça-feira, janeiro 27, 2004
Cinco
Pensei em poder escrever qualquer coisa sobre esta cidade. Não seria a primeira vez que me ocorre dizer um par de coisas sobre os lugares que por mim passam. Esta não é porém uma cidade qualquer. Tem uns quantos poetas, disso não duvido. Mas na verdade esta cidade é habitada por laranjeiras e pelos perfumes que delas emanam, efervescentes. Por aqui o sol bate por dentro em golfadas suaves. As ruas da antiga judiaria arrumam-se apertadas nas margens de um rio em cotovelo. Eu queria escrever qualquer coisa sobre esta cidade, porque nela os becos têm sempre qualquer coisa à nossa espera. Ao peregrino oferecem-se ondas de sentimentos inéditos , forjados ao encanto do passado. Uma cidade que o tempo fez passar de mão em mão, ao sabor da peleja. A roma de colunas sólidas. O orgulho bárbaro. Uma estrela de oito pontas. O grande alá. A reconquista de anjos e santos, nos seus galardões de ouro. Por tudo isto, pelas pedras sobre pedras suspensas no perfume dos pomares carregados, achei que até podia escrever umas coisas sobre esta flor de laranjeira. Berço de averróis, citada por cervantes, cantada pelo fulgor de gôngora. Achei que podia falar disto tudo. Mas quando me pus a rabiscar uns prelúdios, voltaste-te para mim do espelho a que te enfeitavas e perguntaste, perfeita como és: 'vais escrever sobre mim?'
Como é possível escrever duas linha decentes depois de ouvir isto da tua boca? Como é possível não me entregar de bom grado ao motivo de uns lábios doces e dedicar-lhes a escrita toda?
Como é possível escrever duas linha decentes depois de ouvir isto da tua boca? Como é possível não me entregar de bom grado ao motivo de uns lábios doces e dedicar-lhes a escrita toda?
domingo, janeiro 25, 2004
segunda-feira, janeiro 19, 2004
terça-feira, janeiro 13, 2004
Laboratório. Investidas de um fogo sobre material plástico de natureza química.
À primeira investida o material perde índices de solidez, o que é aliás atestado pelo nosso posterior manuseamento. A forma mantém-se porém inalterada, pelo menos a partir do nosso ponto de observação. Não são de igual modo verificadas alterações cromáticas. Emanação de leve odor químico, não sem mínimo efeito de atordoamento nos observadores.
A segunda investida do fogo é agora mais prolongada e incisiva que a precedente. Sem que se verifiquem mudanças de especial ao nível da cor e cheiro, a verdadeira novidade é uma mais acentuada perda de solidez. Na constatação por manuseamento, a matéria plástica revela-se elástica, sem que porém isso afecte radicalmente a sua consistência. Cola-se aos dedos, evade-se por debaixo das unhas e pelas reentrâncias da superfície de experimentação. O material apenas se desintegra por meio de movimentos bruscos ou cortantes.
O terceiro periodo de incineração faz com que o material adquira já certas manchas de cor chamuscada, não completamente negra. O cheiro é o de sempre, inofensivo e sem intensidade. Aí, a consistência segue o exemplo da solidez: dá de si sob a acção do fogo persistente. É possível desfazer o material com facilidade, já não se verificando a forte elasticidade de outros tempos.
Reunimos os fragmentos da matéria esquartejada num todo que é posteriormente submetido a uma quarta investida do lume, na qual depositamos algumas esperanças científicas. Na realidade, a passagem do estado sólido ao líquido parece à beira da consumação, fazendo-se acompanhar de festivos estalidos que cedo evoluem para reais explosões de matéria. O pequeno volume da mesma não deixava adivinhar uma tão acentuada ferocidade de explosão. Para além de surpreendidos, os observadores procuram refúgio num dos cantos do laboratório. Àquele que se aventura perto da mesa de experimentação munido de extintor de emergência, incendeiam-se-lhe as faces e partes significativas do torso. As chamas alastram a todo o laboratório e o poder explosivo da matéria é agora atroz. Esta reage ao acaso e de forma ostensiva à propagação do fogo opressor. Uma comissão de inquérito irá dias mais tarde questionar as condições de segurança do complexo e a competência científica da equipa responsável por tão audaz empresa.
A segunda investida do fogo é agora mais prolongada e incisiva que a precedente. Sem que se verifiquem mudanças de especial ao nível da cor e cheiro, a verdadeira novidade é uma mais acentuada perda de solidez. Na constatação por manuseamento, a matéria plástica revela-se elástica, sem que porém isso afecte radicalmente a sua consistência. Cola-se aos dedos, evade-se por debaixo das unhas e pelas reentrâncias da superfície de experimentação. O material apenas se desintegra por meio de movimentos bruscos ou cortantes.
O terceiro periodo de incineração faz com que o material adquira já certas manchas de cor chamuscada, não completamente negra. O cheiro é o de sempre, inofensivo e sem intensidade. Aí, a consistência segue o exemplo da solidez: dá de si sob a acção do fogo persistente. É possível desfazer o material com facilidade, já não se verificando a forte elasticidade de outros tempos.
Reunimos os fragmentos da matéria esquartejada num todo que é posteriormente submetido a uma quarta investida do lume, na qual depositamos algumas esperanças científicas. Na realidade, a passagem do estado sólido ao líquido parece à beira da consumação, fazendo-se acompanhar de festivos estalidos que cedo evoluem para reais explosões de matéria. O pequeno volume da mesma não deixava adivinhar uma tão acentuada ferocidade de explosão. Para além de surpreendidos, os observadores procuram refúgio num dos cantos do laboratório. Àquele que se aventura perto da mesa de experimentação munido de extintor de emergência, incendeiam-se-lhe as faces e partes significativas do torso. As chamas alastram a todo o laboratório e o poder explosivo da matéria é agora atroz. Esta reage ao acaso e de forma ostensiva à propagação do fogo opressor. Uma comissão de inquérito irá dias mais tarde questionar as condições de segurança do complexo e a competência científica da equipa responsável por tão audaz empresa.
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