Uma obra de arte não pode existir sem um terreno social onde mergulhe as raízes. É o vértice de uma pirâmide que precisa de uma base. E a base é tanto mais ampla, as raízes vão tanto mais fundo, o processo de elaboração é tanto mais complexo e integrador, quanto mais elaborada nos aparece a síntese - estética ou ideológica. É necessário que haja grupos humanos com escalas de valores definidos; é necessário que haja consciência dos limites e da transitoriedade desses valores, quer por serem patentes as suas contradições, quer porque entram em oposição com os de escalas diferentes; e é necessária a experiência humana vivida e meditada à luz destas contradições, desta mutabilidade dos valores que se contradizem ou se opõem e que se sujeitam à revisão.
Esta base e experiência social é condição necessária de toda a forma de elaboração ideológica ou estética. Lá onde foi possível uma obra de arte existiu necessariamente essa base. É por isso que uma obra de arte é significativa, e tanto mais quanto maior é o seu nível estético, ou seja, o seu grau de elaboração. Mas a recíproca não é verdadeira: lá onde existiu uma base social adequada não é necessário que exista também a correspondente síntese ideológica ou estética. A condição necessária para o florescimento da obra de arte não é só por si suficiente. A obra de arte exige mecanismos delicados, tais como escolas, tradições, convívios, etc., coincidências de oportunidades cujo cálculo não conhecemos ainda, tais como a convergência pouco comum de certa feições temperamentais no mesmo indivíduo, juntamente com uma experiência pessoal e circunstâncias particulares (certa combinação de actividade e de ócio, etc.). A Espanha barroca é a base necessária do Quixote; e a pessoa de Cervantes, com a sua formação, o seu meu próprio, o seu temperamento, a sua biografia, etc., constitui uma das condições complementares sem as quais o Quixote não existiria.
António José Saraiva, Comércio do Porto (número especial dedicado aos escritores portuenses)